quarta-feira, 5 de julho de 2017

Nós, vós, eles


Podia agora dissertar sobre como este - o nós e o outro/eles - é "o" paradigma da minha antropologia. Há algo que separa o "nós" do "outro" e normalmente resume-se ao facto de o "nós" ter razão e o "eles" não: "se 'eles' soubessem como as coisas funcionam não diziam/faziam o que dizem/fazem". Quem estuda esta dicotomia acaba por exacerbar a empatia porque é treinado a compreender a perspectiva do “nós” sobre o “eles” mas, essencialmente, encontra os argumentos que fazem do “eles” o “outro” (que não percebe nada disto).

Ora, sendo antropóloga, estou constantemente nesse exercício. Consciente e inconscientemente. Nas fianças sou a tipa com ar comprometido que não diz nada sobre a lentidão dos serviços, ou sobre a falta de capacidade técnica. Porque imagino que "eles" tenham de trabalhar num programa obsoleto, num computador ainda mais antigo, sem o pessoal necessário e com regras que "nós" não conhecemos. Normalmente as minhas reclamações são sobre comportamentos de pessoas e tento não imputar nessas pessoas o fardo do contexto em que trabalham.

Por tudo isto tenho uma sugestão que vai tornar o mundo um lugar melhor, diria mesmo, o paraíso!! Aqui vai: uma lista intitulada "o que vocês não sabem". Esta lista teria de estar presente na entrada das zonas perigosas por exemplo, repartições de serviços públicos (hospitais, finanças, hospitais, conservatórias, hospitais, tribunais, centros de saúde...) e cada utente teria a sua própria lista que adequaria à situação.

Exemplo (que poderia ser meramente) hipotético:
Num hospital (periférico a uma grande urbe) as críticas mais frequentes que “nós” fazemos a “eles” são: a demora no atendimento, a má cara de quem nos atende, o não fazerem caso do que para nós é importante, não levarem connosco o tempo que nós achamos necessário. Com a tal listinha bem visível, possivelmente, ficaríamos a saber que (pela voz deles):
- Temos que ver muitas pessoas a maioria dessas pessoas veio à urgência/serviço porque não quis marcar e esperar dias por uma consulta (confirmar se não é o caso, se for, não esquecer que a espera pode ser de horas mas não de dias);
- Trabalhamos muitas horas seguidas. 12h, 24h, 36h... e também ficamos fartos, cansados e irritados. Além do mais, porque trabalhamos quando os outros descansam e curtem, estamos sempre a perder a festa da escola do nosso miúdo ou um dia importante das nossas pessoas;
- É verdade que normalmente não corremos e não andamos muito apressados. Estamos a guardar energia para quando isso tenha mesmo de acontecer. Se nos virem em modo corrida é porque a coisa está complicada;
- Aprendemos que temos de filtrar aquilo que nos dizem para podermos dar atenção ao que realmente importa. Se marcarem uma consulta, a tal que pode levar a dias de espera, terão de certeza mais tempo para falarem de tudo o que vos atormenta;
- (acrescentar outros argumentos)

Por nosso lado nós poderíamos apresentar a nossa listinha. No meu caso diria qualquer coisa como:
- Estou cheia de medo;
- Não sei se estou preparada para o que têm para me dizer;
- A espera faz aumentar o meu medo;
- Não gosto de hospitais porque me irrita a falta de urgência dos médicos e enfermeiros quando eu estou aflita e me apavora a ideia de os ver em acção a sério;
- Tenho gente que depende de mim à minha espera e só quero ir para casa;

Estou mesmo em crer que esta troca de informação evitaria muitas irritações!

(Post escrito em parceria com a obstetra que me fez esperar 3h pela alta... custou esperar mas tenho a certeza que houve motivos válidos para isso)

2 comentários:

  1. Essa costuma ser sempre a minha perspetiva... deve ser coisa das ciências sociais...esta consciência tão grande... enfim...

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