sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Full disclosure



Este é aquele post que fica nos rascunhos meses sem fim à espera que a censura o apague para todo o sempre ou que se arranjem tomates para o publicar. Tendo em conta que isto está a ver a luz do dia, é possível que esteja mesmo a tornar-me um homem ou então que me vou arrepender de carregar no botão de "publicar" daqui a 35 segundos. Mas vamos lá então, porque sempre fica mais claro o porquê desta barcaça ter ficado tantas vezes à deriva neste último ano e porque, às vezes, é bom saber que há vidas que não são perfeitas neste mundinho de Deus em que tudo que fique mal num quadradinho de instagram não existe! Ou então eu sou a excepção à regra... sou a única gaja que ficou com a vida meio desarrumada, sem um plano para a voltar a endireitar e sem que isso fosse uma opção pós-moderna para uma vida mais "livre".
Desde Junho do ano passado que descobri o seguinte: que não ia ter trabalho (não em moldes que pudesse aceitar), que a minha melhor opção, do ponto de vista profissional, era um plano com fraquíssimas possibilidades de dar certo e de facto não deu certo, que tinha um vírus a comer-me o olho por dentro (mais ou menos, vá) e uma doença auto-imune crónica. Por tanto, em seis meses passei de ser uma pessoa completamente normal (com trabalho e saúde) para estar desempregada e doente. Fixolas, certo? Não tenho dúvidas que as coisas estão relacionadas. Que o stress de não saber o que ia acontecer à minha vida fez o meu corpo entrar em curto-circuito. Era muita tralha para processar e tentar não fazer o fardo maior do que aquilo que ele era para não preocupar as pessoas à minha volta. Não fui bem sucedida porque preocupei na mesma. A determinada altura, os únicos momentos em que as coisas não estavam negras eram quando estava em família e quando estava a correr. Nos entretantos era uma mistura de pânico com acção... mas uma acção semelhante à de uma galinha com a cabeça cortada. Corre em todas as direcções e vai a todas mas sem nenhum plano. Foi preciso bater contra muitas paredes para finalmente acalmar e começar a pôr as coisas em perspectiva. Tive de começar por parar para respirar e não pensar em mais nada se não isso. Não pensar no que ia ser de nós nos próximos meses, nos próximos anos e não pensar nos planos que tínhamos para um futuro próximo. Os vinte minutos por dia em que parava começaram por ser vinte minutos de pranto, depois de angústia, depois de tristeza, depois de aceitação e depois de (alguma) tranquilidade (que o Nirvana ainda está longe). E depois, dei-me um estalo-abre-olhos, deixei de sentir pena de mim e fiz-me à vida. Descobri há uns meses uma estrofe de uma música do Samuel Úria (vénia) que define esse momento:


Não há uma palavra nestes versos que não espelhe aquilo que vivi.
Saí da neura permanente (ela volta e meia lá aparece) e passei os dias a procurar trabalho, trabalhar de borla (não há falta de trabalho, há é falta de dinheiro, ou vontade para o pagar), a ir ao médico, correr e meditar para além das tarefas domésticas e familiares. Quando tudo começava a ficar meio merdoso, lá insistia um bocado mais na história da meditação, corria um bocadinho mais de tempo, via mais um episódio da Patrulha Pata com a minha garota. Eventualmente as coisas tornaram-se mais simples. Mas foi preciso a atitude "que se foda" - aquela que o Cristiano Ronaldo tão eloquentemente explicou ao Moutinho - para aos poucos as coisas se irem encaminhando e estão de facto a encaminhar-se.
Isto tudo para dizer, que às vezes as coisas não correm bem e isso faz parte e não temos mais ou menos valor por isso. Às vezes é preciso que as coisas não corram bem para fazermos alguma coisa que nos tire do marasmo e nos mostre que até temos força quando, basicamente, achávamos que éramos uma espécie de ameba vertebrada. Afinal não, até temos cá qualquer coisa que nos faz levantar... as vezes que forem precisas. Há dias em que sinto na pele que este não foi o último trambolhão (basta as dores apertarem mais para começar em contagem decrescente para o esbardalhanço) mas descobri, que para mim o truque para não enlouquecer e não ter o corpo a implodir, é acreditar no timming dos acontecimentos (até o das tareias) e de que tudo vai ficar bem (e está a ficar bem).

(Aceitam-se apostas: quanto tempo até me arrepender de ter publicado isto?!...)

10 comentários:

  1. Cá para mim, não te vais arrepender nunca. Não há nada de 'vergonhoso', de menos nobre no que escreveste.
    Parabéns e continuação de muita força para que tudo continue a ficar bem, na medida do possível. :)

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    1. Pode ser que não me arrependa mas como não é costume mostrar tanto fica uma sensação esquisita! E, apesar de não haver nada para ter vergonha, parece que, nos dias que correm, toda a gente tem uma vida organizada e orientada!... O que importa é que já está tudo a ficar bem! Mas a força é sempre bem-vinda!

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  2. Arrepender porquê? :)
    Encontro aqui algumas semelhanças com o que se tem passado comigo. Já aprendi que desesperar não resolve nada, muito pelo contrário. Gritar quando é preciso, acreditar que tudo vai melhorar (porque vai mesmo) e seguir em frente (que outra alternativa temos?). Numa postura mais zen, acreditar que as fases menos boas nos ajudam a conhecermo-nos melhor e que nos tornam mais resistentes.

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    1. O truque é o que dizes logo no início: "aprender a não desesperar"! É deixar ir e confiar que vai tudo correr bem! Até lá o stress come-nos por dentro! Acho que isso é que é crescer, certo?
      Beijinhos e boa sorte para a tua nova fase!

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  3. Arrepender só se for de não teres publicado mais cedo ou de não teres ligado à mana pata... Ter-te-ia dado o estalo-abre-olhos mais cedo e contado umas quantas histórias de como tentar arrumar uma vida desarrumada de todo, continuamente...;))

    Beijo
    Li

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    1. A mana pata já tem mmmuuuiiiitttooo com que se entreter, não precisa de mais esta dose! Mas em caso de emergência já sabes que te aterro no colo e tens que te desenrascar!

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  4. Pouca gente tem a vida tão orientada e organizada com parece aos nossos olhos ;) o que importa é que começas a pensar positivo é muito importante para não enlouquecermos!

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    1. É bem verdade, mas há alturas em que não conseguimos ver nada à frente! Só vemos o que está mal! Mas agora está tudo a andar! É como dizes: nada como pensamento positivo!

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  5. Quanto a mim...agradeço-te a partilha!

    Dou por mim a obrigar-me a lembrar-me n vezes que os blogues/facebooks/instagrams todos catitas que por aí andam mostram apenas uma ínfima parte da vida daquelas pessoas...senão cortava os pulsos no segundo seguinte a perceber-me que a minha vida está way too far away dessa perfeição.

    São uma inspiração e todos gostamos de ver coisas bonitas mas também faz parte encontrar essa mesma inspiração no menos bom, no desespero, na luta.

    Sofia

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    1. Partilharei sim senhora! Mas também espero começar a partilhar coisas mais animadas!
      Muito obrigada pelo teu comentário e por visitares este cantinho!

      Beijinhos

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