quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Acho que me andei a guardar para este momento...


Corria o ano de lectivo de 1992-1993 quando os alunos da Escola C+S de Santa Clara* (já não se chama assim) se indignaram e se manifestaram contra os SMTUC*s porque os autocarros os deixavam a um par que quilómetros da escola, obrigando-os a sujeitarem-se às molhas e insolações próprias de cada estação do ano. "Apesar" de sub-urbanos e filhos de gente humilde (que é como quem diz: gente que trabalhava e não gostava de chiliques pseudo-burgueses e "mordomias") percebemos que todos juntos - a escola na época devia ter menos de mil alunos - conseguíamos fazer barulho suficiente para sermos ouvidos. Cortámos a estrada que dava acesso ao hospital dos Covões* porque era aquela onde o autocarro nos deixava. Num raro momento da nossa existência e que durou apenas esse ano, a minha irmã e eu frequentávamos a mesma escola que, por sinal, era também aquela em que a minha mãe dava aulas. Em menos de nada a mãe Fatinha viu todos os alunos que tinha e as duas filhas sentadas no chão à espera de serem abalroadas por uma ambulância ou por um automobilista menos paciente. Pensou que se a coisa corresse para o torto deixava de ter os seus adorados "fregueses" e tinha de dar uma coça valente a quem se arriscasse a arranhar as crias. Dado o cenário e ponderados os desfechos ela, e meia dúzia de professores - não haveria muitos mais na escola -, formaram a primeira linha de manifestantes, apesar de na teoria não terem nada que ver com o assunto (na altura a minha mãe até se deslocava num potente Fiat Uno cor de ranhoca).
Acho que desde aí houve pouco que me fizesse achar que devia fazer barulho (isto de ter crescido nos subúrbios e ter aprendido a não fazer fita, tem que se lhe diga). Até agora. Na minha família mais próxima tenho todo um leque de sodomizados governamentais: reformados, emigrantes "forçados", recibos verdes, trabalho precário e só não falo em desempregados por tenho uma família teimosa o suficiente para recusar o rótulo e contra tudo se fazer à vida. Por eles (que não podem fazer-se ouvir) e por mim, vou barafustar na manifestação que me estiver mais perto!

* para quem não é de Coimbra: são coisas de Coimbra.

1 comentário:

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