sábado, 12 de março de 2011

"Vão sem mim, que eu vou lá ter"

 Photo @ Flickr by Barry McGrath

1º: O título da manifestação faz-me urticária. Manifestação da "Geração à Rasca". Parece-me vago e inapropriado. Vago, porque dá-me a sensação que, em jeito de recruta militar, o apelo seria alguma coisa deste género: "jovem, se tens entre 20 e 35 anos, não tens dinheiro para um iphone e gostavas de ter a vida dos teus pais, junta-te a nós para... para... para fazer barulho". Eu, que adorava ter um iphone, e mais ainda uma ideia de como vai ser a minha vida para o ano, preciso de uma agenda mais concreta, para ponderar queimar um dia de trabalho (sim é fim de semana, mas ainda assim há que trabalhar) e me abalar de casa até à capital. Quanto ao inapropriado, já lá chego.

2º: A gasolina está cara para carago e se ando a fazer malabarismos entre 2 e 3 trabalhos para ter as minhas coisinhas, não é de certeza para gastar €40 em gasoil e mais €15 em portagens só para ir ver as modas e aturar putos bêbados e ganzados.

3º: A "minha" geração está longe de ser "rasca" ou "à rasca". A minha geração é feita de gente que trabalha e que luta, mesmo quando as batalhas parecem perdidas à partida. A minha geração é feita de gente que estudou e investiu na formação e que faz do nosso País um dos melhores em ciência e tecnologia, engenharia, arte... A minha geração não tem medo de medir a sua qualidade com a bitola de outros países. Essa é a minha geração. Na outra, não me revejo. Essa geração não é deste tempo. É de todos os tempos.

Acho que a "minha" geração se devia unir para estabelecer limites mínimos de trabalho. De nada adianta eu dizer que não trabalho por menos de X euros à hora, se há uma fila de gente que não se importa de o fazer. De nada adianta eu dizer que não aceito um trabalho que não se enquadra no âmbito dos recibos verdes, quando mesmo ao lado há 5 mãos já com as folhinhas devidamente preenchidas. De nada adianta andar a fazer doutoramentos e pós-doutoramentos com o reconhecimento do mérito do investigador por parte do Estado, quando é o Estado que não reconhece que o investimento, o esforço e recursos dispendidos merecem ser recompensados como qualquer outro trabalho: com direito a segurança social, contribuições sociais e tudo mais que é de direito e dever. De nada adianta andar a trabalhar, se depois a entidade não paga e o único mexilhão que f#%" é o desgraçado que alombou e não recebeu, e ainda tem que levar com o sistema de justiça a dizer: "temos pena, mas não há nada a fazer*". Com objectivos desta natureza, sou menina para fazer algum barulho...

E é isto.

* já engoli o sapo de não nunca mais ver o dinheiro de 2 anos de trabalho num instituição do Ensino Superior, mas o desgraçado ainda não desceu.

3 comentários:

  1. Já fui estagiária, recibos-verdes, bolseira, já recebi menos de 500€/mês e hoje tenho um contracto de trabalho efectivo. Há que acreditar no nosso trabalho. Só assim atraímos a sorte.

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