terça-feira, 6 de outubro de 2009

Estranhas formas de vida



Faz dez anos que a Amália morreu. Lembro-me de ser caloira e estar a descer as escadas monumentais, depois de terem dito que nessa semana não havia praxe por respeito ao seu desaparecimento. Lembro-me de pensar que estava a viver parte da história. Acho que não posso dizer que fiquei triste. Não porque não gostasse de ouvir a senhora a cantar, ou porque não admirasse a sua (estranha) forma de vida, mas antes porque meses antes tinha já passado por duas perdas daquelas que fazem o coração ficar apertadinho e nos obrigam a procurar força e sentido onde ele parece não existir. Em Agosto desse ano morreu a minha avó Ilda e em Setembro a minha avó Elvira! Duas mulheres que nunca se conheceram por força dos tempos e das distâncias, mas que se admiravam mutuamente! Duas mulheres raras na garra com que prenderam a vida a si obrigando-a sempre a apresentar-se aos que estavam à sua volta com o maior dos sorrisos! Podia ser a maior das escritoras e ainda assim não conseguiria inventar palavras grandes o suficiente para elas caberem!
As saudades que sinto ficam pequenas face ao orgulho de tê-las no meu sangue, por isso se às vezes choro ao lembrar-me delas, não é por pena por não as ter agora comigo, isso seria egoísmo, já que sei que desde o dia em que partiram, que o fizeram em paz e cheias de tanto viver e lutar, mas antes por saber que tive a maior das sortes em aprender com elas durante 18 anos!

A minha avó Elvira dizia-se “filha da quarta-feira”, por não ter conhecido o pai e pôs na linha o inspector que lhe foi fazer o exame da quarta classe! Educou quatro filhos e passou pela maior provação que uma mãe pode passar, ver um deles morrer! Foi três vezes a pé a Fátima e perdia a luz se tinha de entrar num carro! Transportou as malas do meu pai à cabeça, do Souto Bom a Tondela para que ele pudesse estudar, para além do que a Serra do Caramulo lhe tinha para ensinar! Leu todos os livros que apareceram à frente com o mesmo afinco com que cozinhava, tratava da casa e cuidava dos animais e do campo.

À outra avó unia-me uma química inexplicável (que se estendia à minha irmã). Nunca deixou de ser a “menina Ilda”, apesar dos anos! Dizia coisas extraordinárias que só com o tempo passaram a fazer sentido e hoje guardo-as como a um tesouro. A mais importante: “faz-te uma mulher... não queiras ser um homem”! Trabalhou muito a vida toda num mundo em que só os homens mandavam. Não se atrapalhou: vestiu calças (quando as senhoras de respeito não o faziam) e tirou a carta (que na altura não estava destinada às mulheres) e a partir daí conduziu carrinhas e a família por todas as estradas da vida e por mais duras e esburacadas que fossem, chegava sempre ao destino! Tinha uma intuição infalível e sabia sempre o que fazer mesmo quando as soluções pareciam impossíveis!

Há dez anos que descubro o quanto elas são extraordinárias!

5 comentários:

  1. E histórias como essas merecem mesmo ser contadas! :)

    Definitivamente, já se fazem poucas pessoas assim...

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  2. Adorei este post :)
    Costumo dizer que poucas coisas me deixam mais rendida que dizerem que saio à minha avó Rosa... Um dia escrevo mais sobre ela :)
    Estás melhor?
    Beijinhos*

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  3. Adorei este post :)
    Costumo dizer que poucas coisas me deixam mais rendida que dizerem que saio à minha avó Rosa... Um dia escrevo mais sobre ela :)
    Estás melhor?
    Beijinhos*

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  4. Acho que sabes tudo o que penso sobre o assunto...

    "modelo (ê)
    s. m.
    (...)
    2. Molde, exemplar.
    3. Fig. Coisa ou pessoa que é ou merece ser imitada. = exemplo
    (...)" (Priberam)

    Modelo tens vários...

    "orgulho de tê-las no meu sangue"

    Ora os genes também aí moram...

    "sabia sempre o que fazer mesmo quando as soluções pareciam impossíveis!"

    Portanto só falta perceberes do que és capaz ;-)

    :*****

    C. (aka S.)

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  5. P: precisava de meia dúzia de blogs para contar as histórias todas! umas trágicas outras hilariantes!!!

    R: princesa, percebo bem o que dizes! também viro um balão quando me dizem que faço lembrar a minha avó Ilda! é o melhor e o maior piropo que posso ouvir! Tens mesmo que escrever sobre a tua avó Rosa... aprendemos sempre mais qualquer coisa!

    C (aka S): sei o que pensas sim, mas tu és suspeito! ;)

    Beijinho

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